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Não sei se era o lugar ou o cheiro. Passei em frente a uma casa abandonada e tive um déjà-vu. O corredor estreito, com mato alto e dois portões de grade me convidou a uma lembrança antiga — ou talvez a uma sensação. Casas abandonadas têm esse poder de nos suscitar memórias diversas. Foi num instante, naquela fresta em que o inconsciente espreita e se deixa flagrar. E bastou para um fragmento de recordação aflorar.
Era um dia qualquer da minha infância. Eu estava com a minha mãe em um local parecido, com o mesmo tom de tarde e o odor de tempo arrastado que o calor produz. A cor dessa lembrança já me chega desbotada. É curioso como o olhar e a mente não conseguem eternizar um momento — mas basta um cheiro para reacender a fagulha. A cena se desenrolou como se fosse ontem.
Eu nem dava por mim. Não fazia ideia do futuro, de toda a história que me aguardava. Éramos apenas nós duas ali, numa sequência ordinária de fatos que não mudam a vida — mas que, por algum motivo, me marcaram a ponto de, quase 50 anos depois, ainda provocarem saudade. Daquelas que surgem do nada, vêm com o sopro do vento, pairam no verso de uma música e incomodam, cutucam. A saudade da falta. Aquela que não tem cura nem assento. Que desarranja.
Ah, se a gente conseguisse manter a lucidez do quanto tudo é fugaz. Talvez déssemos mais valor às pequenas situações, aos detalhes — como um corredor estreito em que minha mãe caminhava comigo e, tenho certeza, segurava minha mão. Ela nunca soltou, de fato. Segurou até onde conseguiu. Agora, vejo: ela só deixou de segurar fisicamente.
Publicado nos jornais NH, VS e Diário de Canoas em 03/04/2026.

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