ENTRE A REDOMA E O MUNDO REAL


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Tem algo provocador e até um pouco cruel na ideia de que os filhos são nossa versão melhorada. Como se a vida fosse um rascunho e eles, a edição final. Projetamos neles aquilo que não conseguimos ser: mais empáticos, conscientes, abertos. E, de fato, em muitos aspectos, eles são. Falam sobre muitas pautas com naturalidade, defendem causas com coragem e enxergam nuances onde vemos barreiras. Nesse movimento de correção de rota, pode ser que tenhamos inclinado demais o leme.


Criamos uma geração mais sensível — uma conquista civilizatória — mas que parece carregar um peso emocional insustentável. A ansiedade e o medo estão virando idioma comum. Há um desconforto constante com a realidade, que parece sempre hostil demais. E aí surge uma inquietação incômoda: será que, ao protegê-los tanto, não os deixamos despreparados para o atrito inevitável da vida?


Ao mesmo tempo em que passeiam com habilidade por diferentes áreas, muitos não sabem trocar uma lâmpada. Não por incapacidade, mas por desinteresse, falta de necessidade, desconexão com o fazer manual. Não querem dirigir, evitam responsabilidades práticas, postergam ritos de passagem que, para muitos de nós, eram marcos de autonomia. Estamos formando jovens brilhantes para pensar o mundo, mas inseguros para habitá-lo.


Acho que a pergunta mais honesta não seja sobre eles, mas sobre nós, a partir do momento em que confundimos cuidado com contenção e os afastamos da dureza dos dias. Porque o futuro depende, também, de capacidade. E uma geração pela metade, por mais sensível que seja, corre o risco de não dar conta do que a espera.



Publicado nos jornais NH, VS e Diário de Canoas de 24/04/2026.

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