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Existe uma regra silenciosa que organiza a sociedade. Não está escrita em lugar algum, mas integra o senso comum. Vai entrar no elevador? Espere quem está saindo. Está subindo a escada? Fique à direita. Descendo, o mesmo. No trânsito, na calçada, na fila do caixa, a lógica é simples: alguém passa para que o outro também passe.
Chama-se fluxo e contrafluxo. Se não funciona, surgem os problemas. Quando alguém para no pé da escada rolante como se estivesse sozinho no planeta. Quando se atravessa a rua fora da faixa por conveniência. Quando a pista rápida deixa de ser passagem e vira morada.
Não é novidade: ao longo da história, a humanidade já trilhou o caminho contrário. E agora, voltamos a negar a ciência, normalizar a violência e polarizar discursos. O que prova que as civilizações não evoluem em linha reta; andam em círculos. E, quando ocorre um desvio de percurso, quase sempre a ética é sacrificada.
Assim, na contramão da evolução, o Brasil bate um recorde vergonhoso de feminicídios, com a morte brutal de 1,4 mulheres em 2024. Um cenário devastador que está se agravando em 2025. E quando jovens torturam animais, outro alerta se acende. Não é episódio isolado, nem falta de empatia pontual. É um marcador histórico e conhecido de regressão moral, de ruptura com o valor básico da vida.
Mas tudo está conectado. Apostamos todas as fichas no individual. Trancamos o coletivo na gaveta e jogamos a chave fora. E, nessa fresta do tempo, entramos numa via de mão única, um contrafluxo que bloqueia a vida, banaliza a crueldade e nos afasta daquilo que um dia chamamos de civilização.
Publicado no Portal ABC Mais em 30/01/2026.

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