Saía de uma noite imprevista repleta de descontroles. A luz estriava o breu do céu com tons de cinza. Precisava fugir rápido. Uma carona seria o melhor que poderia me acontecer agora. Meus olhos borrados de choro, no entanto, poderiam comprometer os planos. O cabelo suado e fora de prumo também. Atirei o salto quebrado numa lixeira e ajeitei a saia. Não queria que o sol me encontrasse por aqui.
Corri até a esquina. O movimento apático denunciava o final da madrugada ou início da manhã. “É só uma questão de ponto de vista”, você diria — se ainda pudesse. Três carros passaram sem que alguém se comovesse comigo. Na quarta tentativa o motorista encostou. Um modelo azul de linhas incompatíveis com a época. Parecia sugado dos anos 80.
Ele abriu o vidro do caroneiro. A música brega me sufocou. Atrás, uma menina de uns 15 anos, com ar de tristeza infinita. Ela me olhou fundo, tão curiosa a meu respeito quanto eu sobre ela. Ele não falou. Quando fui abrir a porta de trás, bateu com a mão no banco para que eu sentasse na frente. Entrei sem saber para onde ia. Qualquer lugar era lucro.
A manhã surgia calma, convertendo nossa mudez em temas cotidianos. Clima, futebol, o preço da gasolina. A menina que só olhava se parecia com ele. O cara falava como se estivéssemos sós. Apertava a direção, tinha um jeito esquisito. Não perguntou nada. Quando saiu da estrada principal, o alerta soou e pedi para descer. Saltei na hora, há tempo de ouvir sua fala final, abafada pela batida da porta. “Moças direitas não devem andar sozinhas na madrugada. Perdi uma filha da sua idade desse mesmo jeito”.
Publicado no Portal ABC Mais em 26/01/2026.
©Freepik

Comentários